
Na pele da Floresta: Quem Carrega as Cicatrizes?
Racismo ambiental não é novidade — é uma realidade que segue marcando o Amazonas. O texto escancara como comunidades tradicionais são as mais afetadas e invisibilizadas, e reforça: não existe preservação da floresta sem justiça social.
Fernanda Souza
11/29/2024



No contexto do Amazonas, da Amazônia e de áreas que tem forte vínculo com pautas de preservação, vez ou outras vários termos passam a ser usados com certa frequência, e ficam em grande voga. O termo do momento, Racismo Ambiental, pode parecer novo, mas não é, já que foi criado na década de 1980 pelo Dr. Benjamin Franklin Chavis Jr., em meio a protestos contra depósitos de resíduos tóxicos no condado de Warren, no estado da Carolina do Norte (EUA), onde a maioria da população era negra. Se o termo não é recente, imagine o problema.
Historicamente, os povos tradicionais do Amazonas enfrentam a invisibilidade há muito tempo. Começando pela própria invisibilidade do estado, já que as unidades federativas da região norte são sempre identificadas como o grande ente "Amazônia", sem levar em conta as idiossincrasias de cada local, e as características que fazem de cada povo um grupo único.
O racismo ambiental no Amazonas é uma ferida que atravessa as florestas, os ramais e os igarapés. Ele se mostra na exclusão e no abandono das populações indígenas e ribeirinhas, que vivem nos territórios mais ricos em biodiversidade, mas sofrem as maiores perdas. Enquanto mineradoras, madeireiros e outros grandes projetos destroem suas terras, essas comunidades resistem sem acesso aos direitos básicos, frequentemente sem serem ouvidas, e enxergadas como parte da paisagem, como um grande grupo amorfo sob a casca do "guardião da floresta". O impacto ambiental não é igual para todos: quem vive da floresta, com ela e por ela, carrega o peso mais pesado dessa destruição.
Enxergamos essas problemáticas diariamente, na ausência de políticas públicas voltadas para as comunidades que dependem diretamente do território, que invisíveis, vivem a sede e as altas temperaturas no meio da maior bacia hidrográfica do mundo. Isso não é descuido, é escolha, consciente e inconsciente. O sofrimento gera identificação e solidariedade, porém depende: Depende do tom de pele, depende do sotaque, e depende do ponto no mapa.
Nosso Careiro, com sua grande extensão, e cortado pela Rodovia BR 319, vivencia essa realidade diária. É como se o caminho fosse mais espinhoso para nós, os locais. A voz, por mais alto que seja o grito, não alcança, e nem repercute. Nossa dor e nossa insistência em sobreviver se transforma em uma característica, é vista como força, como garra, e nos apropriamos dela. A sensação é a de que aguardamos um ponto de virada que talvez nunca chegue
Mudar essa realidade exige ir além de preservar a floresta: é reconhecer o direito à vida digna daqueles que a protegem há gerações. Não é possível fazer ambientalismo sem justiça social, sem memória, e sem enxergar essas especificidades. O dito pulmão do mundo respira por aparelhos, e seus salvadores não virão de fora. Existimos, seguimos, e resistimos.
Foto: Acervo Pessoal - Joyce Maquiné

